Padre Marchetti

      O Padre José Marchetti, natural da Itália, nasceu em Lombrici-Camaiore, província de Luca, aos 03 de outubro de 1869. Foi ordenado sacerdote aos 02 de abril de 1892. A sequência dos cargos na atividade do padre se desdobrou assim: Pároco em Compignano, Capelão em Balbano e Professor no Seminário de Luca.

     Sensível ao apelo do Bispo de Piacenza, Dom João Batista Scalabrini, que há poucos anos fundara a Pia Sociedade dos Missionários de São Carlos, cuja finalidade era prestar assistência religiosa aos expatriados italianos, o Padre Marchetti aos 15 de outubro de 1894 solicitou o seu ingresso na recente Congregação. De imediato ele foi aceito e o primeiro encargo dele foi o de capelão de bordo de um navio, lotado de emigrantes, que zarpava de Grênova.

Em sua segunda viagem, a bordo do navio “Maranhão”, Padre Marchetti se deparou com um fato angustiante: uma jovem mãe, ao falecer, deixava ao desamparo um marido inexperiente e sem recursos e, na orfandade, uma criança recém nascida. O marido da falecida queria suicidar-se e mergulhar no mar com o catre da esposa; e diante dos rogos do Pe. Marchetti, gritou que ele não se jogaria no mar, caso o padre assumisse toda a responsabilidade com a criança que acabava de ficar órfã. Pe. Marchetti aceitou o desafio e foi o início moral, o gérmen da futura obra de assistência.

     Desembarcando no Rio de Janeiro, Pe. Marchetti com a criança nos braços procurou asilo para o órfão;  não o encontrando, entregou a pobre criaturinha aos cuidados de um porteiro de uma casa religiosa e, fortemente impressionado com o ocorrido, idealizou fundar uma instituição de amparo aos órfãos sem arrimo.

O plano se concretizou em São Paulo: chegando nesta capital, ele pode encontrar-se com o benemérito e caridoso Conde José Vicente de Azevedo, do qual obteve em doação um vasto terreno na colina do Ipiranga, dotado de uma pequena capela, dedicada a São José e 50 mil tijolos, telhas, pedras e outros materiais de construção.

Após a obtenção da autorização e bêncão do Reverendíssimo Dom Joaquim Arcoverde de Albuquerque Cavalcanti, Bispo de São Paulo, os trabalhos de construção do orfanato começaram em 15 de fevereiro de 1895 em ritmo acelerado de sorte que no prazo de nove meses, aos 08 de dezembro o novo Instituto, denominado  Cristóvão Colombo, abriu suas portas a numerosos órfãos, divididos em duas secções: masculina e feminina, acolhendo a todos sem distinção de cor, raça ou nacionalidade.

E com efeito os Estatutos em suas primeiras formulações rezavam assim:

No Orfelinato serão recolhidos:

a) os órfãos, filhos de migrantes de qualquer nacionalidade;

b) os órfãos de outra proveniência, assim como os que, não sendo órfãos, mas largados à vagabundagem, forem remetidos pelas autoridades competentes.

Desde o início, a Direção Interna do Orfanato foi confiada a um pequeno grupo de quatro religiosas da Congregação das Irmãs Missionárias de São Carlos, que teve como fundador D. João Batista Scalabrini e co-fundadores Pe. José Marchetti e Madre Maria Assunta Marchetti.

     No intuito de angariar fundos e donativos para seus órfãos, Pe. Marchetti se submeteu a uma estafante atividade, percorrendo cidades e fazendas do Interior do Estado de São Paulo e exercendo ao mesmo tempo um intenso ministério sacerdotal.

Expressão desse afã em prol dos asilados eram os frequentes e prementes apelos às pessoas de bem e aos colonos, como aquele do dia 11 de março de 1896, vasado nestes termos:

Colonos! Vós já o sabeis: no prazo de nove meses, na colina do Ipiranga, surgiu um ASILO, onde os filhos da desventura já encontram pão, educação e trabalho. Daqui em diante não ouvireis nunca mais, o gemido do órfão;  Vós mesmos, encontrando um órfão, podereis endereçá-lo ao Asilo…

Eu não trabalho para mim; trabalho para os meus irmãos, para os filhos dos vossos amigos e para os vossos filhos, se a desventura vos golpeia. Pelo amor de Deus e pelo decoro da vossa Pátria Gloriosa, não me negueis três dias de trabalho…

Com este pequeno sacrifício, vós assegurais a vida dos vossos filhos e a vossa própria vida e ergueis um monumento, onde o vosso nome será bendito por centenas de infelizes.

Cansado pelas diuturnas fadigas e vitimado por uma febre tifóide, no dia 14 de dezembro de 1896, aos 27 anos faleceu o Pe. José Marchetti, tendo conseguido apenas em parte a realização de seu amplo programa.